XI
Única vez que tremi. Única vez que sofri dividida entre um prazer santo e outro profano. Justo eu Marta – um raio – sovaquinho e almiscar – dona de todos os prazeres carnais capaz de enlouquecer todos os homens – como poderia ser dual, previsível, comum? Não resisti। Senti-me sufocada como em uma cela, aprisionada, cativa. No peito a ânsia de encontrar Aurélio – Aurélio, Ah, Aurélio! – latejava me cortando as entranhas. Das roupas que vestiam meu corpo incendiaram-se todas nem pó sobrou. Medo. Tive medo. Senti raiva e depois ódio, muito ódio. Eu Marta – um raio – sovaquinho e almiscar ali sôfrega, trôpega qual a um cordeiro antes de ser abatido. Como dói o dilema do amor e do prazer. Na verdade são dois dilemas. Um, para apaziguar as vicissitudes da alma, o outro para sangrar os desejos das carnes. Sinto minhas vísceras se dilacerando na arrebentação das lágrimas. Corri desesperada. Corri nua pelo labirinto. Um desconhecido me alcançou empreendendo fuga e alçou sobre mim uma estranha capa cobrindo completamente meu corpo. Não o reconheci era um homem sem rosto. Apenas os olhos brilhavam em uma tonalidade de cor desconhecida, inexistente. Com um agudo grito ecoando pelos cantos do meu quarto acordei mergulhada em suor e pânico. Deslizei as mãos até o ventre. Meu corpo ainda estava totalmente nu como no sonho. Depois, procurei pelo rubro sangue de minhas entranhas não encontrando nada, nem uma gota. Senti frio. Senti medo. Senti prazer e alívio! Lembrei da promessa do gozo perdido por Aurélio – Aurélio, Ah, Aurélio! Lembrei do homem não muito novo e também não muito velho na tarde não muito tarde da tarde que apressada pisei o chão da sala da biblioteca pública amassando covardemente as solas das minhas cintilantes e não menos belas sandálias...
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XV
A primeira coisa que pensei foi no prazer. A segunda foi no silêncio. Havia silêncio boiando pelo ar. Tremi. Sentia as carnes se contorcendo pelo corpo. Precisava daquilo. Desejava a ponta da sua língua deslizando pelas minhas virilhas. Arrepio. A pele respondia ouriçando os pelos a um toque quase sentido. Um calor úmido se desprendia por entre minhas coxas. Libido. Volúpia. Frisson. Carne, somente carne e desejo. Um pensamento apenas meu e não dividido manteve fixo o olhar no imaginado membro, membro quente, viril, rijo. Busca. Aflição. Na cena vi mãos que se digladiavam aflitas explorando. Tempestades. Muitas foram as tempestades que impediam qualquer investida. Senti falta de me insinuar a uma qualquer – boca de homem que contivesse o melhor hálito de homem, língua de homem, cheiro de homem, braço de homem, pernas de homem, ventre de homem, peito de homem, mãos de homem, força de homem, libido de homem, impetuosidade de homem, desejos de homem, coragem de homem, homem inteiro não divido e inacabado. Homem que por umas escapadas horas da noite apenas e tão somente se fizesse viril e que de sua carnuda e vistosa boca meu interesse residiria somente nos seus lábios e em sua língua fugidia que atrevida deslizaria sobre e dentro de meu sinuoso e convidativo corpo.
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XVII
O desejo fervia as carnes consumindo a razão। Eu precisava daquele homem rasgando as vísceras entrando dentro de mim. Ardia, queimava dilacerante aquela vontade do gozo prometido por Aurélio – Aurélio, ah! Aurélio! Foi aí que recordei do – “escrotarium barbosorium, de um certo ninguém, sibarita maldito pela igreja no século xiii, que para escapar ao jugo de seus perseguidores se enforcou pelo próprio pé, ressuscitando nove meses depois do útero de uma virgem do culto de ísis, tendo a seguir fugido dentro da barriga de um crocodilo do nilo que confundira seu membro com a tromba de um elefante, finalmente desembarcando nos trópicos sob os auspícios milagrosos de uma antiquíssima sociedade secreta, da qual se tornou o líder e – dizem – graças a seus segredos, está vivo até hoje" – escrito único capaz de transformar Aurélio – Aurélio, Ah, Aurélio! – em homem comum e a mim uma mulher satisfeita, completa. Precisava reavê-lo para em seguida satisfazer toda minha lascívia sibilante. O chamado da carne se fazia latejante, insuportável. Satisfiz meus apelos carnais solitariamente ali no canto escuro do quarto em que a noite ainda virgem não ouviu nem sentiu gemidos, sussurros, êxtase e gozo. Solitariamente permaneci contraindo as carnes recolhendo minhas agruras e desenganos.
A ceifa não se fez naquela noite e durante outras tantas permaneceu abstrusa, intacta, contida ali, bem ali no toque insano das minhas mãos no limiar do impossível entre a vergonha velada e o tédio aflito।
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XXI
Uma sensação estranha me envolvia। Enquanto caminhava a lembrança do homem não muito novo e também não muito velho me seguia. Os fantasmas do séqüito ficaram mais atrás. O homem santo não muito santo também ficou. Eu continuei e caminhando sem sentir os passos, parecia levitar. Foi aí que zaz! Aguda. Uma dor aguda atravessou minha alma. Seria a mão do diabo? Seria Barbosorium? Quem poderia fazer aquilo? Sim quem pretendia roubar minhas entranhas? Continuei a marcha enfraquecida. Do caminho avistei ao longe uma bifurcação e luzes coloridas. As imagens agora se misturavam contorcendo-se à minha frente. Eu precisa seguir. A cada passo a força do meu corpo se esvaía. Precisava continuar o homem não muito novo e também não muito velho dependia de mim! Todos dependiam de mim! Ele dependia de mim...! Ele...quem? Alguém...eu sei quem!
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XXVII
Um fato concluiu todo aquele ato. Ele o senhor da sina se regozijava em minhas entranhas qual a um açoite. Suportando a dor da ausência desejei mistura-la ao prazer. Eu desejava Aurélio – Aurélio, Ah, Aurélio! – sabia que somente nele encontraria a luxúria tão aguardada. Eu, Marta – um raio – sovaquinho e almiscar necessitava sentir novamente o viço de um homem, mas não homem apenas homem e sim, uma fera astuta, matreira, dominadora e sedenta. Minhas carnes ardiam qual a brasas ansiando pelo toque másculo e forte daquele com quem travaria uma luta visceral de prazer e dor. Domínio, sedução, desejo insano inesgotável. Amor profano, pagão, ilimitado.
Senti falta de me insinuar a uma qualquer – boca de homem, que contivesse o melhor hálito de homem, língua de homem, cheiro de homem, braço de homem, pernas de homem, ventre de homem, peito de homem, mãos de homem, força de homem, libido de homem, impetuosidade de homem, desejos de homem, coragem de homem, homem inteiro não divido e inacabado। Homem que por umas escapadas horas da noite apenas e tão somente se fizesse um viril homem e que de sua carnuda e vistosa boca meu interesse residiria somente nos seus lábios e em sua língua fugidia que atrevida deslizaria sobre e dentro de meu sinuoso e convidativo corpo. Entretanto, a imagem de Aurélio – Aurélio, Ah, Aurélio! – me afugentava a razão. Dele eu queria muito mais que a sua língua fugidia, pretendia ter seu membro viril entrando e saindo com movimentos rítmicos e acelerados de dentro de mim. Senti meu sexo intumescer e meus seios enrijecerem. Meu corpo cobrava prazer. Minhas carnes tremiam. Uma onda de desejo invadiu minhas entranhas. Não me contive por alguns segundos sucumbi escorregando meus dedos até meus seios, porém antes de prosseguir levei as pontas dos mesmos ao meu sexo para umedecê-los e por fim, toquei deslizando primeiro suave e depois com mais força, os bicos duros. Depois daquele efêmero prazer, conferi o calor que exalava por entre minhas coxas. Meu sexo agora completamente úmido ardia, pulsava, latejava exalando o meu cheiro de fêmea ao mesmo tempo em que dava indícios que logo estaria pronta para ser penetrada e sim sentir apenas sentir, muito prazer.
Copyright © 2007 by William Teca e Eliana Schuster
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